O discurso do “ame-se com todas suas imperfeições” tem tomado grandes proporções dentro do âmbito da internet e está sendo altamente difundido por influenciadoras digitais e marcas das mais variadas. A ideia crua e nua possui um cunho nobre e de grande importância social, especialmente entre adolescentes, que estão na fase de maior influência externa, além de todas as mudanças corporais acontecendo, contudo, em algum momento do caminho, o nobre discurso perde-se em função de atenção, cliques e visibilidade.
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Durante anos, as revistas venderam dietas restritivas e shakes para acelerar o emagrecimento; as modelos nas passarelas encontravam-se cada vez mais magras e, atualmente, as “blogueiras”, ou seja, as influenciadoras digitais, através das plataformas de redes sociais mostravam rotinas insanas de exercícios e procedimentos estéticos.
Os adolescentes e jovens adultos estão em uma fase da vida na qual o prestígio e o reforço social tendem a ter maior força e relevância, pois ainda estão testando seus limites e se conhecendo. Porém, estão muito vulneráveis à influência da mídia e dos grupos em geral. Ou seja, casos de bullying ou não aceitação do grupo podem agravar o descontentamento quanto à aparência deste jovem. Quando modelos, atrizes e influenciadores da internet, que são figuras representativas de sucesso, bom humor e boa aparência, ditam regras para o alcance desse tal sucesso, agravam-se os riscos, pois boa parte do que é dito por eles, podem virar regras para esses jovens e as consequências podem ser desastrosas. O grande perigo está no quão inatingível é esse tal padrão de beleza a ser alcançado. A magreza é pareada ao sucesso, dinheiro, glamour e aceitação social. E muitas vezes o “eu” é odiado por não se parecer nem um pouco com o que é o padrão exigido para o alcance da tal felicidade, atingida apenas ao obter “o corpo perfeito”. E o jovem, ao acreditar que esse é o único caminho para solucionar todos seus problemas, sente-se fracassado por não alcançar tal meta e quando consegue emagrecer, não consegue usufruir de tais expectativas geradas por tal crença. A consequência disso é o aumento de tentativas, ainda mais purgativas, para o alcance do objetivo.
A busca incessante para se encaixar no "padrão" da sociedade acaba por desencadear transtornos alimentares como a anorexia e bulimia. Segundo a Análise do Comportamento, quaisquer comportamentos do indivíduo, o que inclui os comportamentos relacionados aos diagnósticos de Anorexia e/ou Bulimia Nervosa, devem ser analisados através dos três níveis de seleção propostos por Skinner (1953): filogenético, ontogenético e cultural.
Comportamentos filogenéticos são aqueles relacionados á espécie. Por exemplo: esperamos que o comportamento do albatroz seja voar. Ou seja, voar é um comportamento filogenético desta espécie. Assim, temos uma relação incondicionada com o alimento e com sua escassez, típica da nossa espécie. Se formos estudar o ambiente no qual nossos ancestrais sobreviveram, fará sentido o porquê os alimentos calóricos são os preferidos e aqueles que promovem maior satisfação e sensação de prazer, sendo também, àqueles que estão relacionados ás compulsões alimentares. A filogenia também explica o porquê algumas pacientes anoréxicas relatam bem estar e sensação de força e autocontrole após períodos de jejum. No ambiente hostil, a capacidade de se manter motivado a buscar alimento e continuar a migração seria indispensável á sobrevivência humana, ou seja, esse comportamento se manteve na seleção natural da nossa espécie.
O comportamento ontogenético é a própria história de reforçamento do indivíduo. Ou seja, o comportamento que se desenvolveu ao longo dos anos, a partir de suas experiências de sucesso e fracasso. Portanto, a análise do comportamento a partir de tal ótica depende da análise da função do comportamento, ou seja, como o comportamento é evocado e quais consequências ele produz no ambiente. E tratando-se de Transtornos Alimentares (TA), podemos listar inúmeras funções desse comportamento, distintos para cada paciente, sendo desde possíveis déficits em habilidades sociais até casos envolvendo histórico de abuso sexual ou outros transtornos psiquiátricos no qual o TA é comorbidade.
O comportamento cultural está relacionado à história das práticas coletivas, no qual o indivíduo faz parte. Ou seja, o culto ao corpo e a ideia da garantia do reforço social a partir de uma aparência considerada bela é um dos fatores de risco para os TA.
Na mídia tradicional quase não há espaço para representatividade, onde muitas atrizes e atores são forçados a emagrecer para melhor atender ao requisito; nas redes sociais, o discurso que surgiu de pessoas não satisfeitas com o padrão e tentavam conseguir ter a voz ouvida, acabou sendo silenciada pelas mais famosas. Pensamentos e sentimento de fracasso e desespero permeiam estes jovens e adolescentes que não possuem o corpo desejado, podendo sim ser um fator importante no desenvolvimento de quadros clínicos de transtornos alimentares ou até mesmo outros transtornos psiquiátricos como depressão e ansiedade podem surgir em comorbidade .
Assim, o papel do psicólogo é o de descobrir, a partir da análise funcional junto ao paciente, quais contingências mantêm o comportamento disfuncional e modificá-las nas relações que o paciente estabelece com o ambiente, de forma a minimizar seu sofrimento a partir deste conhecimento.
Texto: Carolina Kiuchi e Márcia Romeiro
Créditos da imagem: Maria Calvano (@projetomulheresreais)
Psicóloga Márcia Elizabeth S. Romeiro | CRP 06/107472
Márcia é Psicóloga e Psicopedagoga na Seminare Psicologia & Saúde. Atende crianças, adultos e casais.
Especialista em Psicologia Clínica – Terapia Comportamental e Cognitiva pela Universidade de São Paulo – USP, Formação em Terapia Cognitiva Comportamental pelo Centro de Estudos em Terapia Cognitiva Comportamental – CETCC e Especialista em Psicopedagogia pela Universidade Braz Cubas.