Saúde Mental

Depressão: Como adoecemos e como nosso estilo de vida pode estar relacionada à doença

23/03/2026 16:17 12 min

Afinal, depressão é mesmo uma doença? Esta é uma questão freqüente em grande parte da população. Infelizmente, muitas pessoas ainda acreditam que se trata de falta de esforços, preguiça ou falta de trabalho e responsabilidades. Para entendermos melhor, será necessária a explicação de vários aspectos relacionados ao processo de adoecimento, inclusive experimentos científicos com animais que esclarecem este processo em humanos.
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Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), a depressão representa hoje a quarta “doença” mais diagnosticada mundialmente e estima-se que um sexto da população apresentou ou apresentará alguma manifestação depressiva.  Na metade dos casos o transtorno chega a ser incapacitante, comprometendo a realização de atividades nos mais diversos grupos dos quais o indivíduo participa, podendo ocasionar afastamentos no trabalho, baixa produtividade, acidentes, empobrecimento das relações sociais, adoecimento por outras enfermidades e risco específico de suicídio.

Usualmente, são utilizados para a realização de um diagnóstico de Depressão a CID-10 (Classificação Internacional de doenças, 1997) e o DSM-V (Manual diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, 2013). A depressão, de acordo com o DSM-V, é caracterizada por uma série de eventos, tais como rebaixamento do humor (hipotimia), perda de interesse e prazer nas atividades cotidianas (anedonia), apatia ou agitação psicomotora, pensamentos negativos, redução do apetite, alteração do sono, diminuição de energia, pensamentos de morte e ideação suicida. No entanto, todos os termos citados são descrições de sintomas (resposta fisiológica), que não levam em consideração as contingências que envolvem tais respostas. Tais características do transtorno usualmente são justificadas a partir de teorias de bases neuroquímicas. Os antidepressivos são os medicamentos desenvolvidos para tratar tais sintomas, agindo nas sinapses (principalmente sinapses que contém noradrenalina e serotonina), aumentando a quantidade de neurotransmissores e disponibilidade no local. As grandes projeções de células que contém noradrenalina e serotonina no sistema límbico sugerem que a atividade de regiões límbicas, incluindo o córtex pré-frontal, é anormal na depressão.

No entanto, as explicações com bases neurobiológicas pouco exploram as causas deste funcionamento, ou seja, como o organismo desenvolveu tal funcionamento e como ele é mantido. Para a Psicologia Comportamental, comportamento é uma resposta do organismo diante de sua interação com o ambiente. Diante de uma situação de urgência ou risco, no qual identificamos que há necessidade de fugir ou lutar, nosso organismo irá funcionar de acordo com a situação identificada, ou seja, respostas fisiológicas serão emitidas para que possamos lidar com o problema. Geralmente, fugir é a solução mais rápida e eficaz e promove alívio imediato, o que falsamente nos dá a sensação de que o problema desapareceu. No entanto, o problema, por não ter sido resolvido, continua a evocar sensações desagradáveis o que promove a iniciativa de buscarmos a solução do mesmo. Porém, na ausência ou insuficiência de habilidades necessárias para a solução definitiva do problema, é como se "déssemos murro em ponta de faca", ou seja, por mais que nos esforcemos parece que as tentativas mal sucedidas nos tornam ainda mais vulneráveis ao risco e como um "mecanismo de defesa" do organismo, desistimos de lutar e nos "escondemos", a fim de evitar a morte numa guerra no qual ainda não sabemos lutar. Na Psicologia Comportamental dá-se o nome de Extinção a esse processo. Se explicarmos tal fato a partir de nossos ancestrais (pois nosso organismo ainda é o mesmo e reage da mesma forma), é como se ao perceber-se indefeso diante do perigo, buscássemos nos esconder dentro da caverna escura. E para ficarmos ali, em segurança, tivéssemos que perder o interesse e a vontade do que há do lado de fora: pessoas, luz solar, comida, lazer, sexo entre outros. No entanto, como nosso organismo responde aos estímulos do ambiente, a ausência de estimulação do que está do lado de fora da caverna não nos permitirá sair, pois se estamos dentro da caverna, não sabemos se a guerra lá fora acabou. E se eu não tenho tais evidências, permanecerei dentro da caverna e meu organismo funcionará com os padrões comportamentais depressivos. Por isso, é importante compreender o que levou o indivíduo a deprimir e o quais os padrões comportamentais desenvolvidos o mantém deprimido. Além disso, enquanto o indivíduo está "dentro da caverna" ele está privado de contato social, o que poderá promover um baixo repertório em habilidades sociais, resultando no comportamento inadequado e conseqüentemente, na evitação dos outros.

Outras situações podem levar ao adoecimento por Depressão. É comum as queixas de Depressão se apresentarem após uma perda significativa para o indivíduo como o desemprego, o fim de um relacionamento, a morte de um ente querido entre outros. No entanto, a maioria dos indivíduos com repertório comportamental adequado (conhecimentos, habilidades e atitudes adequadas para determinadas situações) encontram outras fontes de reforço para repor a perda. Os problemas mais crônicos ocorrem quando o reforço perdido mantinha, relativamente, uma grande proporção do repertório comportamental do indivíduo e existem poucas alternativas de reforço. Como exemplo, podemos citar a situação da perda do emprego àqueles que não desenvolvem atividades prazerosas fora do trabalho. Para estes, o risco de deprimir é muito maior do que àqueles que possuem atividades prazerosas fora do trabalho.

Estudos mostraram também, a partir do modelo experimental com animais, que a imprevisibilidade e a incontrolabilidade à estimulação aversiva pode resultar em uma redução comportamental generalizada e na baixa sensibilidade às atividades prazerosas e à percepção quanto à possibilidade de sucesso. A dificuldade de aprendizagem de estratégias de enfrentamento apresentada por indivíduos que tiveram experiência prévia com eventos aversivos incontroláveis foi denominada “desamparo aprendido” Este estudo contribuiu para um entendimento mais amplo do processo depressivo em humanos, que possibilitou o desenvolvimento de estratégias de intervenção baseadas no controle de estímulos e/ou na mudança comportamental.

Os autores Overmier e Seligman (1967) fizeram o experimento pioneiro dessa área utilizando como sujeitos, cães presos a arreios, divididos em quatro grupos: três grupos foram submetidos a choques elétricos incontroláveis (6,0 mA), variando entre eles a quantidade e intervalo entre choques, mas tendo em comum que nenhuma resposta emitida pelos sujeitos poderia desligar o choque; o grupo restante não recebeu choques.

Após vinte e quatro horas desse procedimento, todos os animais foram submetidos a um esquema de 10 tentativas de esquiva/fuga no qual, ao iniciar um sinal (diminuição da luz ambiente), o sujeito tinha 10s para saltar uma barreira que dividia a caixa em dois compartimentos, evitando que o choque fosse apresentado; não sendo emitida essa resposta, ao final dos 10s, o sinal era desligado e apresentado um choque (4,5 mA) que seria interrompido pela resposta de saltar a barreira (fuga), ou após 50s na ausência dessa resposta. Obteve-se que os animais não expostos previamente aos choques aprenderam a resposta de fuga, enquanto que os que haviam recebido os choques incontroláveis não aprenderam essa resposta, apresentando latências altas durante todo o experimento, concluindo-se que essa dificuldade em aprender teria ocorrido em função da exposição prévia aos choques incontroláveis.

Posteriormente, Seligman e Maier (1967) realizaram experimento a fim de compreender se a dificuldade em aprender respostas de fuga deve-se à exposição prévia aos choques ou à incontrolabilidade da estimulação aversiva em questão. Para isso, os sujeitos foram expostos a um dentre três tratamentos distintos, envolvendo choques controláveis, choques incontroláveis ou nenhum choque. No laboratório, para um animal vigorava a contingência de esquiva/fuga onde a emissão da resposta de pressionar um painel com o focinho evitava/desligava o choque para si e para outro animal a ele acoplado, cujo comportamento não alterava a ocorrência dos choques. Com isso, ambos os sujeitos recebiam choques com igual quantidade, intensidade, duração e intervalo, com a única diferença que para um deles os choques eram controláveis pela sua resposta de pressionar o painel, sendo incontroláveis para os animais a eles acoplados. O terceiro grupo não foi exposto a choques na fase de tratamento. Vinte e quatro horas depois, todos os animais foram submetidos a uma nova contingência de esquiva/fuga utilizando a resposta de saltar uma barreira. Após 10 tentativas sob essa contingência, os resultados mostraram que tanto os sujeitos previamente submetidos aos choques controláveis quanto os que não receberam choques emitiram a resposta de fuga com latências semelhantes entre si ao longo da sessão, enquanto que os sujeitos previamente submetidos aos choques incontroláveis não emitiram a resposta de fuga ou, quando a emitiram, apresentaram latências próximas do máximo possível até o final da sessão. Esses resultados demonstraram que a dificuldade de aprendizagem apresentada por estes últimos ocorreu em função da exposição prévia à incontrolabilidade dos choques, e não aos choques em si.

Portanto, não é a situação aversiva que promove o efeito do desamparo aprendido, mas sim a incapacidade ou baixa eficácia do indivíduo em cessá-la ou em prevê-la. Os cães expostos ás contingências aversivas incontroláveis, mesmo diante de uma nova situação na qual seria possível evitar o choque, não tentaram, pois “aprendeu que não há nada o que possa ser feito”. Portanto, o histórico de punições prolongadas e sem possibilidade de fuga na vida destes pacientes é algo bastante comum e que deve ser considerado.

Outra questão importante para a explicação comportamental da Depressão refere-se aos determinantes do comportamento verbal que caracterizam os deprimidos e como estes vêm a influenciar seu comportamento. Por exemplo, se um indivíduo entende que as sensações provocadas por um estímulo aversivo, como é o caso da tristeza, significa que o mesmo está "deprimido e doente", logo, a palavra "doença" poderá eliciar um repertório de sensações, pensamentos e atitudes ligados á tal palavra. Respostas a estes tipos de questões são sugeridas por pesquisas em equivalência de estímulo (Hayes, 1991) e a transferência da função por meio de classes de estímulos equivalentes (Dougher&Markham, 1994). É como se ao dizer a palavra "limão", mesmo sem tê-lo visto, apenas o estímulo auditivo à palavra eliciasse a salivação ou a memórias de características e receitas feitas a partir dele, bem como o desejo de apreciá-las.

Como tratamento para a Depressão, as psicoterapias comportamentais têm sido as mais recomendadas. Resultados como redução dos sintomas, aquisição e/ou aumento no repertório de habilidades sociais, conseqüentemente no aumento e melhoria nas relações interpessoais têm sido freqüentemente associados a essas intervenções. As intervenções são baseadas na realização de uma análise funcional, ou seja, na descrição das variáveis (antecedentes e conseqüentes) relacionadas ao comportamento do indivíduo. Por meio dessa análise são identificados os comportamentos públicos (ações, falas) e encobertos (pensamentos, sentimentos) relacionados à instalação e manutenção do comportamento-problema. A identificação desses comportamentos permitirá o treino de um repertório comportamental favorável para que o indivíduo possa obter melhores estratégias de enfrentamento no seu dia a dia.

A Terapia da Aceitação e do Compromisso (ACT) também tem sido utilizada no tratamento da Depressão. Apresenta-se com o objetivo de reduzir os comportamentos de esquiva e interromper processos de aprendizagem de comportamentos disfuncionais. Além disso, as estratégias terapêuticas visam estabelecer um repertório mais adequado para o enfrentamento e aumento da oferta de reforçadores positivos ao indivíduo. Outra abordagem norteada a partir dos mesmos princípios da ACT é Mindfulness. É baseada na aceitação da experiência e não na reação à experiência em si e de que aceitando as condições naturais da vida criamos a habilidade de responder a essas condições de maneira mais criativa e funcional.

 

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Além da Psicoterapia e o uso de medicamentos antidepressivos, outras atitudes são importantes para a obtenção de resultados no tratamento da Depressão. Um estilo de vida saudável, alimentação balanceada, uma boa noite de sono, prática de atividade física, momentos de lazer, a companhia de pessoas amadas e relacionamentos equilibrados e reforçadores são importantes para que haja uma boa recuperação. A estruturação de uma rotina organizada, evitando-se muitos  imprevistos e situações  caóticas diariamente, ajudará a minimizar respostas de  estresse e ansiedade, precursores da Depressão. A percepção sobre o ambiente ao nosso redor, como somos afetados por ele e como respondemos é imprescindível para a promoção da saúde mental.

 

Lembre-se: a melhor forma de obter bons resultados no tratamento é entender o processo que o levou à Depressão e que o mantém deprimido. É necessário compreender o processo anterior ao adoecimento para que seja possível promover melhores formas de combater os sintomas e possibilitar um melhor manejo da rotina para a recuperação.

Na Seminare Psicologia & Saúde, temos atendimentos específicos para o tratamento da Depressão. Converse com um de nossos Psicólogos.

Psicóloga Márcia Elizabeth S. Romeiro | CRP 06/107472

Márcia é Psicóloga e Psicopedagoga na Seminare Psicologia & Saúde. Atende crianças, adultos e casais.

Especialista em Psicologia Clínica - Terapia Comportamental e Cognitiva pela Universidade de São Paulo - USP,  Formação em Terapia Cognitiva Comportamental  pelo Centro de Estudos em Terapia Cognitiva Comportamental - CETCC e Especialista em Psicopedagogia pela Universidade Braz Cubas.